A sociedade espetacular planetária de maio de 68
Por Luis Eustáquio Soares em 02/07/2013 na edição 753
1
Os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari propuseram duas formas de
política para atuar, pensar, criar, ler, viver: uma política existencial
molar e uma política existencial molecular. A primeira, a molar, é
constituída por planos fixos, segmentados, já instituídos, como certa
ideia de esquerda em contraposição a outras não menos previsíveis visões
do que seja direita; bem versus mal, povo homogêneo, amigo versus
inimigo, centro e periferia; pobre e rico; homem e mulher,
heterossexual, homossexual; ser branco, ser negro, ser índio, ser
criança, ser latino, ser americano, ser jovem, fases etárias, saberes
instituídos, a própria língua, entendida como um conjunto de convenções
que nos faz falar cadeira, por exemplo, e imediatamente pensar ou ver
uma cadeira, objeto de quatro pernas contendo um suporte onde sentamos
para realizar múltiplas atividades cotidianas; enfim, molar é tudo que
está estratificado, organizado, dado, realizado, sendo perceptível,
dedutível, acreditável. Por sua vez, a segunda perspectiva existencial, a
molecular, é precisamente o contrário da molar: é tudo que não está
dado, que não está pronto, que não está instituído, nunca é um à priori,
de modo que também não é fixo, é movente, metamórfico, uma coisa e
outra e outra, sem que possamos regular de antemão; sem que possamos
dizer, “é isto”, “é aquilo”, porque é sempre um aglomerado de
partículas, de misturas, de heterogêneos, de imperceptíveis, de séries
divergentes. O molecular é, pois: o não visto, o não sentido, não
pensado, não escutado, não realizado, não esquadrinhado, multiplicidades
imprevisíveis.
2
O jogo entre a política existencial molar e a molecular determina
nossas vidas, sobretudo se o assumimos integralmente, o que só é
possível sabendo de antemão que o molar, os valores fixados numa época
dada, não é absoluto precisamente porque a sua grande tara, sua,
digamos, verdadeira fixação é a conquista ininterrupta do plano
molecular, seja administrando-o, seja potencializando suas energias
irreprimíveis para conquistas definitivamente molares, como a de cargos
eletivos, de lucros astronômicos. Desde que o mundo é mundo,
principalmente tendo em vista as civilizações de tradição do oprimido, o
desafio dos poderes molares instituídos sempre foi o de submeter o
plano molecular, colocá-lo a serviço do molar. A nossa época,
principalmente na sua versão falsamente molecular, a ocidental, pode ser
simplesmente definida como um período histórico que imita o plano
molecular, a fim de a vivermos ou de vivermos nela como se estivéssemos
em pleno ciclo da vida livre, irreprimível, marcada por multiplicidades
étnicas, de gênero, culturais, etárias, estéticas. Essa é, pois, uma
questão crucial, de vida ou de morte, na atualidade: o imperialismo
ocidental se especializou, com o uso das novas tecnologias de
comunicação, em apanhar o plano molecular, fazendo-o agir a seu serviço,
mesmo que acredite que esteja produzindo a sua liberdade molecular,
múltipla, irreprimível. A crença atual na espontaneidade juvenil,
sobretudo das classes médias, marcada pela alegria, descontração, pela
suposta liberdade sexual, pelo respeito às diferenças, enfim, a crença
que nossa época tem no plano molecular certamente tem relação com o pior
aspecto possível do plano molar: a sua gestão mundial sofisticada pelo
imperialismo ocidental.
3
Nas civilizações marcadas por religiões semíticas de salvação, como a
nossa, a cristã, a mulçumana, a judaica, Deus geralmente é concebido
como um centro molar transcendental, um a priori da justiça, da
bondade, da beleza, da harmonia, da proteção, por outro lado, o diabo é
visto e descrito como molecular, daí a célebre passagem bíblica, em
Marcos 5:9: “Então Jesus lhe perguntou: ‘Qual é o seu nome? Meu nome é
Legião’, respondeu ele, porque somos muitos’.” O diabo, pois, é
molecular porque é legião, sempre é um e outro de outro, híbrido, sem
que possa ser definido de antemão, não sendo circunstancial que é também
vara de porcos, um indefinido coletivo considerado sujo, bestial,
incontrolável.
4
É possível conceber o povo, portando, sob duas formas: um povo molar e
um povo molecular, num contexto em que o primeiro é apanhado pela
transcendência molar, por Deus, pelo Estado, pelo mercado, pelas
instituições, pelos saberes, sendo harmonizado, esquadrinhado,
enfeixado, organizado, amansado, pacificado; e, por sua vez, o segundo, o
povo molecular, é geralmente percebido como um povo sem direção,
descentralizado, desorganizado, invadindo ruas, instituições, sem que
possamos apreendê-lo, domesticá-lo, tal como a vara de porcos – um
coletivo inapreensível, sujo, impuro, híbrido, imperceptível,
imprevisível. Por outro lado, como o contemporâneo é o período de
imitação do plano molecular, uma dissimulada época que a si mesma vive
como se realizasse por todos os lados os fluxos livres das
multiplicidades imperceptíveis, com sorrisos, é possível deduzir que na
verdade o nosso atual período histórico se caracteriza como a de um povo
molecular apanhado e esquadrinhado pelo plano molar, de tal maneira que
acredite que, ao se expressar supostamente de forma criativa,
destemida, revolucionária, esteja livre dos planos molares tradicionais,
como o plano molar do patriarcado, logo da opressão de gênero, e/ou o
plano molar racista, logo da opressão étnica; ou ainda o plano molar da
concentração de riqueza, sob a forma de opressão de uma classe sobre as
outras.
5
A grande sacada do imperialismo ocidental, como forma planetária de
gestão de ilusões no interior do capitalismo contemporâneo, é a produção
(via tecnologias de comunicação, via sociedade do espetáculo) de um
teatral povo molecular que é paradoxalmente tanto mais molar quanto mais
acredita ser molecular. Um, portanto, molecular povo molar que, ao ter a
ilusão de que se expressa como molecular, como povo livre de poderes
instituídos, realiza sem que o saiba (e muitas vezes sabendo) o jogo dos
poderes molares de sempre, como o molar e milenar poder patriarcal,
como o molar e não menos milenar poder étnico, branco, se consideramos a
história da modernidade ocidental; como enfim e em começo o poder molar
do sequestro das riquezas comuns. Nossa época acha que deve se livrar
dos planos molares históricos, como, por exemplo, o molar plano
maniqueísta que divide o mundo em bem e mal, e, achando, ilude-se que
basta dizer que não é molar que a gente deixa de ser, espontaneamente,
como um ato de vontade individual e de pequenos grupos ou segmentos de
classe. Esse é, pois, o pior obstáculo do contemporâneo: a crença de que
estamos realizando as liberdades irreprimíveis do plano molecular,
abandonando e desqualificando, como inferiores, todos os planos molares,
sem saber que estes continuam nos esquadrinhando, vigiando,
orquestrando, tomando, usando-nos a seu bel-prazer, principalmente o
plano molar-mor da atualidade: o imperialismo ocidental, especialista em
sequestrar povos moleculares e fazê-los agir em seu nome acreditando
produzir a sua própria liberdade.
6
Ser molar, hoje, portanto, é acreditar que somos moleculares,
abandonando totalmente “velhos” planos molares produzidos pelos povos
moleculares do mundo, como o da luta de classes, o da necessidade de
produzirmos uma sociedade pós-capitalista, dos comuns, comunista. Nossa
época iludidamente molecular orgulhosamente defende a dúvida, a
confusão, a incerteza, como parâmetros de uma supostamente livre
sociedade molecular, num contexto em que necessitamos como nunca dos
molares planos das seguintes certezas realmente liberadoras: a certeza
de que é impossível uma sociedade realmente molecular ou a produção de
uma civilização de povos moleculares sem a superação do capitalismo,
imutavelmente molar; ou a molar certeza de que a opressão de classe, de
alcance planetário (sob a forma molecular de intensa divisão social do
trabalho e dos saberes), é ainda o grande desafio a ser superado, se
quisermos realmente produzir, em processo, um povo molecular. O abandono
principalmente dessas duas certezas molares precedentes, a necessidade
de produção de uma sociedade pós-capitalista a partir do fim da opressão
de classe, é o que tem nos tornado extremamente vulneráveis hoje,
alegres presas fáceis do, insisto, mais funesto plano molecular jamais
existido, acúmulo sofisticado e tecnológico de todos os outros: o
imperialismo ocidental.
7
Por outro lado, não existe maior perigo para as esquerdas que o de se
tornarem molares, acreditando-se moleculares. Acreditando, pois, que o
povo molecular está nas ruas realizando involuções “revolucionárias”
líbias, egípcias, sírias, espanholas, brasileiras e tantas outras do
passado mais ou menos recente, chamadas de “revoluções das tulipas”, das
laranjas, das cores, tendo como parâmetro antes de tudo o horizonte da
liberdade civil, como se este fosse o lugar por excelência de realização
de um povo molecular. As esquerdas estão no geral sem norte e muitas
vezes defendem a falta de norte como uma salutar forma de produção de
perspectivas moleculares. Elas não podem, sob hipótese alguma, abandonar
alguns importantes e indispensáveis planos molares duramente
conquistados, de forma molecular, sempre, a saber (e repito): o plano
molar de que é preciso cobrar sim dos movimentos sociais, confundindo-se
com eles, sendo eles, perspectivas pós-capitalistas claras, objetivas,
sabendo de antemão que o imperialismo é o nosso molar inimigo comum,
razão pela qual as nossas bandeiras, ao irmos para as ruas, deve ter
esse norte, um norte principalmente fundamental para os moleculares
povos do sul: o norte sul ou o sul norte de que é preciso ir para as
ruas sim contra o capitalismo, logo contra as oligarquias, logo contra
as corporações, logo contra o imperialismo ocidental, plenamente
consciente de que este é o gestor mundial do engano geral em que nos
metemos ao nos acreditarmos moleculares sem realizarmos um efetivo
exercício de desqualificação e de destronamento do mais nefasto plano
molar em que estamos mergulhados muito além do pescoço: a civilização
ocidental e seus molares esteios fundamentados no fetiche da mercadoria,
na submissão planetária à forma-dinheiro e também na submissão ao
fetiche desta outra mesma mercadoria: a de que as sociedades civis são o
verdadeiro lugar do plano molecular de nossa época.
8
Um verdadeiro povo molecular, portanto, não pode, sob hipótese alguma,
abandonar os planos molares conquistados historicamente por suas
revolucionárias lutas moleculares do passado só porque acredita que hoje
ele é espontaneamente molecular. Maio de 68 foi apanhado, como
movimento molecular, pelo plano molar das estratégias atuais do
imperialismo ocidental, que nos vende (se trata mesmo de vender) a
ilusão, por exemplo, de que a juventude (principalmente as de perfis de
classe média, marcadas pelo estilo americano de vida) é o espontâneo,
alegre e sexual corpo/rosto da produção de um mundo molecular, de modo
que, para que este último aconteça, é necessariamente fundamental que
abandonemos a figura do adulto e do mestre, vista e concebida por todos
os lados como autoritária, despótica, molar. Maio de 68, na França,
inventou a juventude, tal como a conhecemos no contemporâneo. A hipótese
principal é: maio de 68, como movimento revolucionário que procurou
destronar a figura do mestre e do adulto foi capturado pelo imperialismo
ocidental, razão pela qual produzimos sim uma juventude presunçosa, que
tende a desqualificar os planos molares conquistados pelos (também
jovens) moleculares povos do passado porque, de forma molar, acredita
que esses planos (exemplos de sempre: a produção de uma sociedade
pós-capitalista, o fim da opressão de classe) são anacronismos
defendidos por carrancudos adultos que insistem em se posicionar como
não menos anacrônicos e superados mestres.
9
As esquerdas tendem a fazer uma conciliação entre Deus e o Diabo quando
o assunto é o povo revolucionário, molecular, pois geralmente o
concebem ao mesmo tempo como vara de porcos, revoltando-se, mas também
como povo homogêneo, marcado pela unidade transcendental, como se o povo
se revoltasse por motivos semelhantes: a fúria contra um ditador,
contra um governo, contra uma igual situação de injustiça patrocinada
por tal e qual estado, sempre tendo em vista a premissa molar de que o
povo é o povo da revolução, da luta por justiças, genuinamente
anticapitalistas ou que o povo o é de determinado país, o povo
brasileiro, o argentino, o venezuelano, o americano, sem considerar, por
exemplo, a molar molecular divisão do povo, sua dissonância, seus
dissensos irreconciliáveis, como a divisão de classes, de língua,
étnicas, culturais; e também seu perfil híbrido, nacional e estrangeiro,
rural e urbano, anacrônico e futurista, metamórfico como o diabo, sem
que possamos enfeixá-lo por qualquer forma de a priori.
10
Muito do que tem sido analisado sobre as manifestações que tomam as
ruas do Brasil, previsivelmente parte de pontos vista típicos de uma
política existencial molar. As análises feitas pelo mundo daqueles que
se consideram de esquerda exigem perspectivas moleculares, se quiserem
realmente não apenas entender de antemão a salutar ocupação das ruas,
com vistas a produzir um país mais justo, mas também se quiserem influir
de modo mais consequente nos rumos dos acontecimentos. E isso por uma
questão muito simples: o imperialismo, como gestor mundial do capital,
embora molar, planeja e age de forma molecular, sabendo claramente que o
grande jogo, o da dominação total da espécie humana, só é vencido
realmente se o plano molecular, o da vida em sua intensidade de criação,
de tesão, de critica, de libertação, de desejos, justiças, for
cuidadosamente apanhado pelo plano molar dos interesses, por exemplo,
das multinacionais – verdadeiro poder do contemporâneo, mais que o poder
do Estado.
11
No entanto, como o que era molecular tende a se tornar molar, é preciso
ter clareza, fora de qualquer dúvida molecular (ou molar) de como
devemos agir. Na primeira versão do filme Matrix (1999), num
momento culminante da narrativa, o personagem Morpheus diz claramente
para Neo: “Não temos mais tempo para dúvidas!” Se quisermos realmente
ser jovens (neo, como sabemos, significa novo), esta é também, ainda que
molar, a verdadeira premissa de nossa época: “Não temos mais tempo para
dúvidas!”. Não temos igualmente mais tempo para brincarmos de confusos
ou acharmos que somos espontâneos numa civilização de hierarquização, de
polarização e de opressão, como a nossa, fiel herdeira das civilizações
precedentes, igualmente hierarquizantes, polarizadoras e opressoras.
Vivemos, portanto, numa civilização velha de modo que ser novo é também e
antes de tudo entender claramente as consequências desse argumento:
temos sim que superar a civilização burguesa, começando por superar os
principais esteios que a sustentam, com clareza e sem dúvida: o
imperialismo ocidental, fundamentalmente bélico; as oligarquias, os
despóticos poderes das corporações, assumindo integralmente a política
como espaço de decisão sobre os destinos da humanidade inteira,
independente de grupos, de países, de qualquer outro referencial
segmentado, particular.
12
Leituras feitas de sites de esquerda pelo mundo afora, principalmente
de analistas políticos internacionais, tendem a assumir os seguintes
pressupostos molares: 1) Os governos do PT, de Lula e de Dilma, traíram
totalmente a classe trabalhadora, ao não se libertarem do
neoliberalismo, principalmente considerando seus dois principais eixos
molares, o da chamada autonomia do Banco Central e o da política
submissa de garantia de um insustentável superávit primário, fonte
criminosa de enriquecimento de meia dúzia de credores, abandonando, por
exemplo, setores como o da saúde, educação, moradia, reforma agrária,
transporte coletivo, pois tanto a política dos juros altos,
estabelecidos pelo Banco Central, como o suicídio do superávit primário
constituem, juntos, a verdadeira sangria do povo brasileiro e a
continuidade da nossa rendição ao neoliberalismo. Se quisermos dar
consequências a esses argumentos, absolutamente legítimos, é preciso
perguntar, também: onde o povo molecular na rua está claramente exigindo
o fim de sua escravidão relativamente à autonomia do Banco Central e de
seu sequestro realizado pelo superávit primário? Ou será que, mesmo sem
o saber e que tenha todos os motivos do mundo para se rebelar, o
supostamente molecular povo na rua não foi capturado para precisamente
retirar do poder um governo considerado duvidoso (para as oligarquias
dominantes) precisamente porque não tem respeitado tanto assim o
imperativo categórico dos juros altos ( da autonomia do Banco Central) e
também o do superávit primário? Onde o povo molecular na rua, insisto,
para exigir que o governo diminua drasticamente os juros (taxa Selic) e
acabe logo com a verdadeira corrupção que é o superávit primário,
investindo todo esse recurso nas cidades brasileiras, editadas de forma
duramente molar pela divisão de classe que empurra sem dó nem piedade o
povo pobre (vara de porcos?) para as periferias de periferias?
13
Em diálogo com David Harvey, existe uma relação direta entre os espaços
da cidade, fundamentalmente molares (editados previamente pelos
interesses especulativos, imobiliários, multinacionais, por segmentos de
classe) e a edição privatista e individualista da cultura prevalecente
em nossa época pelo menos desde a década de 70, qual seja: a cultura
neoliberal. As cidades possuem, pois, uma divisão espacial previamente
editada no âmbito de sua configuração de classe, intensificada no
período neoliberal, que é o que ainda vivemos. É evidente que as
manifestações que tomaram as cidades nas últimas semanas têm relação
direta com as históricas exclusões inscritas no próprio tecido urbano,
não sendo circunstancial que tudo tenha começado com um insuportável
aumento da passagem de ônibus, independente se foi aquém da inflação,
pois a mobilidade urbana constitui o mais flagrante delito contra o
direito de ir e vir, deixando claro o impeachment contra a cidadania, a verdadeira premissa urbana de nossa época.
14
É igualmente por isso que um movimento insubmisso, jovialmente
indignado, que se volta contra o segregacionismo urbano, enchendo suas
ruas e avenidas, não deve permitir, no processo de sua constituição: 1)
que o monopólio da palavra elitista, capacho do imperialismo americano,
marca do sistema midiático brasileiro, edite e seqüestre a luta por um
país justo ao reforçar as tendências mais nefastas da exclusão urbana,
as quais se definem concretamente pelas péssimas condições de mobilidade
e de moradia precisamente dos pobres e dos negros, empurrados cada vez
mais para periferia de periferias, pela implacável volúpia da
especulação imobiliária; 2) que a questão política da edição, portanto,
não se dá apenas no âmbito dos suportes midiáticos, mas também no tecido
urbano, ele mesmo editado previamente pela evidente repartição
classista e racista do espaço urbano, com a região dos ricos, dos
pobres, dos miseráveis, dos excluídos mesmo da exclusão, tal o abandono
histórico da maior parte da população; 3) que intervir no espaço urbano é
também uma questão de edição, no sentido claramente político, razão por
que tal intervenção não pode negar a política e muito menos não pode
ser uma manifestação contra a política, mas antes de tudo uma
manifestação que leve em conta que o espaço urbano é ele mesmo um espaço
de ignominiosa exclusão de classe, étnica, de gênero, epistemológica;
4) que qualquer intervenção no espaço urbano que não leve essas molares
edições prévias, ao mesmo tempo contra a população pobre, contra os
negros, contra a maioria esmagadora, será facilmente reeditada pelas
corporações midiáticas nacionais e internacionais e servirá
inevitavelmente aos interesses mais escusos, fascistas e golpistas; 5)
que é, por isso mesmo, preciso decidir, decisão revolucionária,
realmente indignada, sobre qual espaço da cidade vale a pena ser
ocupado; 6) que é preciso evitar a tudo custo ocupar os espaços da
cidade nos quais os trabalhadores mais excluídos geralmente circulam; 7)
que a cidade a ser ocupada é precisamente a dos ricos, a fim de não
sermos apanhados pela edição prévia de estarmos tomando precisamente a
cidade já tomada, enquanto os ricos nos assistem confortavelmente, em
conformidade com as edições prévias e as reedições posteriores
elaboradas precisamente pela TV Globo e pelo conjunto do oligopólio
midiático; 8) que não temos que ir para as ruas com cartazes esperando
que o sistema midiático nos apanhe e nos mostre para o mundo porque esse
tipo de perspectiva está previamente editado pela sociedade do
espetáculo; 9) que a luta é também contra a sociedade do espetáculo; 10)
que o imperialismo é o gestor mundial das edições prévias, presentes e
futuras de modo que sua principal preocupação é manter a ordem
imperialista das edições instituídas, razão por que não nos iludamos,
ele conhece nossos passos;11) que é preciso ir às ruas contra as edições
prévias, presentes e futuras do imperialismo, conhecendo seus
interesses prévios, presentes e futuros com relação ao Brasil, à América
Latina, ao mundo;12) que tudo está perdido se acreditamos apenas no
espaço urbano concreto, sem levarmos em consideração a necessidade
imperiosa de ocuparmos outros espaços, o jurídico, o subjetivo, o
bancário e sobretudo o mediático, por ser o virtual espaço de reedição
do já editado: a miséria da vida e do mundo;13) que o lugar da mentira e
da demagogia no contemporâneo é o das corporações midiáticas, de modo
que sob hipótese alguma devemos cair em suas artimanhas; 14) que ou
ocupamos o espaço midiático ou estaremos condenados, independente de
nossas verdadeiras intenções, a sermos inevitavelmente ocupados, ao
sermos reeditados em conformidade com os interesses, sobretudo
imperialistas, realmente responsáveis pela miséria urbana do Brasil e do
mundo.
15
O imperialismo ocidental não é uma transcendência, isto é, não é um
fora em relação às nossas supostas moleculares vidas, pois se manifesta
em nós mesmos, em nossas supostas multiplicidades quando, por exemplo
ocupamos as cidades, para nos manifestarmos, sem considerar que os
centros urbanos do Brasil e do mundo estão, de forma molar, previamente
editados pelos interesses especulativos, imobiliários, midiáticos,
oligárquicos. Se não reeditamos essas edições prévias dos centros
urbanos, mais que ocuparmos as cidades, estamos sendo literalmente
ocupados por ela, logo pelo imanente e onipresente imperialismo
ocidental, que se manifesta concretamente no jogo das edições passadas,
presentes e futuras, a serviço dos interesses de suas oligarquias.
16
Desde que o mundo é mundo, como aqui foi dito, o grande jogo despótico
dos poderes constituídos foi e é: capturar as multiplicidades,
esconjurando seus demônios. Na sociedade do espetáculo, que é a que
realmente vivemos, as cidades são antes de tudo cidades espetaculares,
fortemente editadas pelas edições e reedições elaboradas despoticamente
(nunca somos consultados) pelo tirânico e molecular (porque sabe sorrir)
poder das corporações midiáticas, sempre a serviço do imperialismo
ocidental. Ir às ruas para produzir fisicamente o espetáculo no interior
de uma cidade espetacular é simplesmente suicídio ao mesmo tempo molar e
molecular, pela simples razão de que fatalmente seremos reeditados em
contextos a partir dos quais e nos quais nossos mais legítimos desejos
de justiça serão capturados e transformados em dezenas de milhões de
brasileiros exigindo dos molares poderes constituídos a volta da ordem
imperialista, sob a forma de golpe militar, jurídico, parlamentar,
midiático, moleculares.
17
É assim que esconjuraremos, nós mesmos, nossos demônios, acreditando
que estamos sendo sujeitos moleculares de edição, em contextos
posteriores, de reedições, nos quais e a partir dos quais somos e
seremos espetacularmente reeditados em conformidade com o molar plano
dos donos do mundo.
18
É preciso ocupar a sociedade do espetáculo, desestruturá-la de sua
função espetacular, que transforma sem cessar tudo em mais espetáculo,
inclusive as possíveis revolucionárias revoltas juvenis.
19
Ocupemos, pois, aqueles que nos ocupam desde antes. Ocupemos as mídias
corporativas e as usemos, de forma molecular, para que editem notícias,
filmes, danças, novelas, entretenimentos, reportagens, músicas, poemas,
ficções e realidades de um povo realmente molecular porque sabe
claramente que jamais pode abandonar as conquistas molares fundamentais
para a vida: a do pão pra tod@s; a da moradia digna para tod@s, a do
transporte urbano digno, que de forma alguma pode ser privado; a de que
um povo livre, que produz os caminhos moleculares e molares de sua
infinita justiça, é antes de tudo um povo que não se submete aos poderes
instituídos, sabendo, na atualidade, conhecer e reconhecer, sem a
mínima dúvida, o mais nefasto deles: o imperialismo bélico ocidental,
que nos ameaça destruir a tod@s com as atômicas armas moleculares vindas
de todos os lados: a bomba atômica, as radiações bombásticas de
fósforos brancos, de plutônios empobrecidos, as de nêutrons; as
igualmente radiativas bombas especulares que nos tornam inevitavelmente
espetaculares, quando devemos ser simplesmente amáveis amantes das
infinitas igualdades, as únicas que nos tornarão, inventando-as,
realmente povos moleculares.
20
Para tanto, nosso maio de 68, quando não mais precisaremos de mestres,
não mais será editado por insubmissos jovens espetaculares, porque tod@s
seremos velhamente jovens, no devir infância de nossa jovialidade
velha, porque jamais recusará as duras aprendizagens molares do milenar
passado opressor que nos tem tornado tod@s vetustos quanto mais nos
pensamos espontaneamente livres de suas moleculares molares garras
despóticas, soberanas, étnicas, patriarcais, midiáticas, cibernéticas,
no enquadramento espetacular de um estilizado sorriso para a morte,
enquanto os fluxos da rede nos enreda quanto mais nos sentimos nós
mesmos partículas da matrix das multiplicidades iludidamente
espontâneas, nos servidores do capital.
21
Aí, sim, seremos nosso junho de ninguém, porque de qualquer um, porque realmente de carne e osso, fluxos de abraços.
***
Luis Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes)