sexta-feira, dezembro 30, 2011

"Aquela mulher" e "Formiga"

Aquela mulher (meu bom exemplo)
Cláudia Patrícia
(Para Anália)
Aquela mulher tinha sonhos
tinia
querelas com a vida escassa
a engrandecia todo dia
todo dia
não parava
não gemia
Aquela mulher pelejava e curtia
Aquela mulher tinha sonhos
de repente
eu era um desses sonhos.
Como eu poderia, então, deixar de sonhar
viver-arquitetar?
Aquela mulher vive em mim
e muito além de mim.






E mais:





Formiga
Cláudia Patrícia
Ando pelas ruas buscando encontrar a casa onde viveu minha mãe, na esperança de nela enxergar alguma marca do que foi sua passagem por aqui. Uma luz e sua sombra entre paredes, uma rachadura no muro que ela, certamente, um dia tentou remendar, uma letra escrita com um caco de telha, seu rosto atrás da janela...
“Cidade muito boa”, dizia. Nunca concordei totalmente. Sem ela, definitivamente. Busco um banco pra escrever estas linhas. A praça é feia e suja, e o verde dos bancos é apenas tinta sobre concreto. Mesmo entre muitos, quem é daqui reconhece os forasteiros, a quem olham com espanto. Ao menos, eles ainda guardam essa capacidade.
É certo que, se eu pudesse, faria do entorno destes canais um lugar aprazível, como se de uma Amsterdam tropical se tratasse. Como possivelmente foi um dia, com sua bela vegetação ribeirinha, frondosa, natural, agreste... Se eu pudesse, salvaria este rio, faria esta gente ver quão belo ele é, implantaria em sua pele uma vontade, uma mania, um ideal inexorável de cuidar dele e amá-lo, o que seria o mesmo. É claro que manteria os seus pitorescos quiosques pintados de verde à sombra de suas margens, um pouco mais limpos, talvez, e menos pobres de tudo, mas sem que perdessem sua autenticidade e seu charme, e somente para fazer jus ao rio renascido. “Cidade muito boa”, eu mesma diria.
Mas a cidade é porca, as pessoas são porcas, e minha única esperança é de que todo esse descaso e inconsciência não se instalem na mágica Capetinga (Santo Hilário), “muito boa”, sob cujas atuais águas nasceram oito belas mulheres, filhas de Maria (Dona Cota) e João, dentre elas, minha mãe, “muito boa” e cheia de luz!

sábado, dezembro 24, 2011

Natal



Natal
 Tereza Neumam
Fortaleza



Não obstante o homem estar,
No presente, como há eões,
Em peregrinação constante
Entre o passado e o futuro,
Entre o material e o espiritual,
Entre a ilusão do velho e a ilusão do novo,
Entre o sonho do que foi
E o sonho do que será,
Urge que nasça o verdadeiro homem,
E que nele tudo isso transmutado seja!...
Que da exclusão parta para a inclusão,
Que do dividido e da subtração
Em que o eu impera, passe
Para o somatório e a multiplicação
Que somente a Alma gera!
................................................................................................
Não obstante o homem
Estar no presente, como há eões,
Pelas polaridades dividido,
Da eternidade assim subtraído,
Urge que, através de toda a diversidade
Conseguida e tão intensamente revivida,
À unidade chegue em auto-realização;
E para isto, hoje, no Campo, todas
As possibilidades aí estão!
.................................................................................................
Urge que abramos o caminho para isso,
Urge que silenciemos e transmutemos
A diversidade de dentro através do fora,
A diversidade do fora através do dentro;
Urge que assim a unidade partilhemos,
No silenciar de dentro para fora,
No silenciar de fora para dentro;
Urge que do sonho nasça a Realidade,
Que do velho Adão, peregrino até então,
Surja o novo Adão, nasça o novo Homem,
Realidade vivente perante a qual,
Todas as nossas realidades perecem
No esquecimento do não ser!
..................................................................................................
Saudemos, portanto, o nascimento do Novo Homem,
Do filho de Deus, do filho do homem,
De Jesus em nós mesmos,
Para que a Humanidade enfim,
Verdadeiramente também possa fazê-lo!
Que o Natal, possa assim,
Se efetivar em cada um de nós!!!

                                                                Jarinu-SP, 19/12/2003
                                                                     Tereza Neumam

domingo, dezembro 18, 2011

e-mail de poeta

 Kalil, me desculpe, mas vou postar seu e-mail, que é pura poesia...
Com certeza!!!


Juntamente, segue sua poesia, um presente... "Num arranjo arrojado
De tal modo celebrando a nossa madrugada"...lindo também, meu mestre.
Valeu, POETA. Abraços
Carlos Wagner
18/12/11

Caro Poeta Carlos Wagner, 
boa noite,
como a maioria do povo brasileiro eu detesto ler tanto quanto escrever, ser poeta é pior ainda, malditos sejam os poetas e suas rascantes assinaturas que trazem à luz nossos piores pesadelos e nos ensinam a cicatriz, amuleto que batalha em nós, com intenção de morte, aquilo que é morte, não obstante, às vezes me perco em algum poema, enquanto Belo Horizonte não acaba. O que virá a seguir, foi selecionado pela Editora Scortecci, e faz parte da Antologia do II Concurso de Poesias da Revista Literária. A propósito, bem-aventurada seja a sua Verve quando diz: “...de dar o salto para o novo ovo de uma explosão de nova vida... Então descambas para a espera nervosa, nervosos lábios aos gritos lançando-se aos ritos, mitos, mil tons”, já  valeria a leitura de tão inteligente e charmosa poesia que vc intitulou “A Hora Do Agora”, mandou bem,  recomendo aos brasileiros e brasileiras.

Nesta hora, declino o meu Blues, conforme entendimento numa fria encruzilhada perto da não menos fria Ouro Preto, de hum menor poeta ao poeta maior:

MERA MADRUGADA 
Kallil

Ontem
Desde hoje de manhã até ontem de madrugada
Eu me buscarei perdido em teus delírios
            E mais perdido ainda quando por fim olvidar
            Um coração batendo coração com coração
            Madrugada adentro
Quando enfim chegar ontem finalmente
Antevejo um  bouquet garni vinhos violinos flores tintas flautas agridoces
Brotos de bambu e um punhado de arroz no grão acolhedor das mãos
O tapete persa reencarnado aqui e ali como se fosse aqui e ali
Ao som de cítaras indianas e pandeiros ciganos
Num arranjo arrojado
De tal modo celebrando a nossa madrugada
E
De repente bem menos que de repente
Um sol inverso brilhará outrora com toda aurora que lhe resta
Única chama acima embaixo e ao derredor
Nosso amor de madrugada
Oh
Doce amada diamante negro bendita brasileira
Quando afinal ontem vier
De algum déja vu chegar
Misturando a minha carne fraca à sua palavra fêmea
Rasgada poesia que eu trago apensa ao peito
            Ontem de madrugada
            Eu morrerei de amor

Wellington Kallil
             


sábado, dezembro 03, 2011

Dilma e os militares....

Foto inédita mostra Dilma em interrogatório em 1970
A vida quer coragem (Editora Primeiro Plano), do jornalista Ricardo Amaral, chega às livrarias na primeira quinzena de dezembro. A foto abaixo, inédita, está no livro que conta a trajetória de Dilma Rousseff da guerrilha ao Planalto. Amaral, que foi assessor da Casa Civil e da campanha presidencial, desencavou a imagem no processo contra Dilma na Justiça Militar. A foto foi tirada em novembro de 1970, quando a hoje presidente da República tinha 22 anos. Após 22 dias de tortura, ela respondia a um interrogatório na sede da Auditoria Militar do
Rio de Janeiro.
http://www.youtube.com/watch?v=s6ZnnaCxAhg&feature=player_embedded

Lô - Horizonte Vertical
Novo disco!!!

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Cruzada do Papa Inocêncio III - 1215

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-ultima-sessao-do-iv-concilio-de-latrao#more


A última sessão do IV Concílio de Latrão

Do Opera Mundi

Hoje na História: 1215 - Papa Inocêncio III pede nova cruzada e intensifica perseguição aos hereges

Com o fim do IV Concílio, aumentou a repressão a grupos opositores de Roma 
p>O papa Inocêncio III preside a última sessão do IV Concílio de Latrão em 30 de novembro de 1215. Este novo concílio ecumênico foi o quarto a ter lugar no palácio romano de Latrão. Resultou na condenação dos cátares e dos valdenses; na proibição de criar novas ordens religiosas; na manutenção da discriminação contra os judeus; na aparição do termo “transubstanciação”. De resto, o papa apela por uma nova cruzada. Todavia, seria seu sucessor, o papa Honório III quem a organizaria dois anos depois e que acabaria em fracasso.
Até 1184, a ação de reprimir a heresia na Itália era problema dos bispos nas áreas afetadas. O III Concílio de Latrão (1179), que discutira a incidência da heresia, dirigiu sua atenção parao sul da França. No entanto, em 1184, o papa Lúcio III e o imperador Frederico Barba Ruiva encontram-se em Verona e juntos condenam os cátares, patarinos, valdenses, humiliates, os Pobres de Lyon e outras seitas.  
Foi Inocêncio III (1198-1216) quem pressionou para que a ação papal tivesse maior âmbito. Enviou uma torrente de cartas sobre heresia aos arcebispos e bispos e aos governantes seculares. Ele via a reforma da Igreja como necessidade básica. Em 1215, o IV Concílio de Latrão reafirmou a legislação pontifical ainda em vigor.
Em seu primeiro cânone, o concílio aprovou a doutrina baseadanas tradicionais profissões de fé, que foi porém emendada para contemplar as presentes heresias. O terceiro cânone especificou os procedimentos contra os heréticos, Outros cânones tocaram no tema da heresia de várias formas.
Por ocasião da morte de Inocêncio a Igreja já mobilizava suas forças contra a heresia, faltando apenas a Inquisição papal, para o que os precedentes já estavam estabelecidos.
Seria excomungada e anatematizada toda heresia que se levantasse contra a sagrada, ortodoxa e católica fé. Seriam condenados todos os hereges, fosse quem fosse. “Ele têm distintas faces, mas suas caudas estão atadas juntas na medida em que se parecem em sua arrogância. Que esses condenados sejam levados às autoridades seculares para a devida punição.”
Se fossem clérigos seriam primeiramente privados de suas ordens. Os bens do condenado seriam confiscados se foremlaicos e, se clérigos, seriam aplicadas as leis da ordem da qual recebiam o estipêndio. Aqueles que fossem apenas suspeitos de heresia seriam tocados pela espada do anátema, a menos que provassem sua inocência por uma apropriada purgação, levando-se em conta as razões da suspeita e o caráter da pessoa. Se a excomunhão persistisse por um ano seriam condenados como hereges.
Se um senhor temporal, demandado e instruído pela Igreja, negligenciasse em depurar seu território dessa "imundície herética", estaria sujeito à excomunhão. Se se recusasse a dar satisfação dentro de um ano, a questão será levada ao supremo pontífice que poderá declarar seus vassalos livres de prestar-lhe lealdade e tornar a terra, após a expulsão dos hereges, disponível para ocupação pelos católicos.
Também estavam sujeitos à excomunhão os crentes que homiziassem, defendessem ou apoiassem os hereges. Qualquer pessoa que, após ter sido indicada como excomungada, se recusasse a prestar satisfação dentro de um ano, seria acoimado de infame e não poderia ser admitido em órgãos públicos, nem escolher outros para a mesma função ou prestar testemunho. Não teria a liberdade de manifestar a última vontade nem de receber herança.
Se fosse um juiz, suas sentenças não teriam vigência e casos não poderiam ser levados ao seu julgamento; se advogado, não lhe seria permitido defender ninguém; se notário, os documentos por ele autenticados não teriam valor algum; se clérigo, que fosse destituído de qualquer função ou benefício.

sexta-feira, novembro 11, 2011

Estudantes na USP


Ocupação patética, reação tenebrosa
Ao que tudo indica, a ocupação da reitoria da USP foi de fato patrocinada por um grupo de aloprados, que atropelou o rito das assembleias realizadas até então e, num ato de desespero (calculado?), fez rolar morro abaixo uma pedra que, aos trancos, deveria ser endereçada para pontos mais altos da discussão.
Estudante é retirado a força de ocupação na reitoria da USP. Foto: André Lessa/AE
Uma vez que essa pedra rolou, como se viu, tudo desandou. Absolutamente tudo, o que se nota pela declaração do ministro-candidato-a-prefeito (algo como: bater em viciado pode, em estudante, não) e do governador (vamos dar aula de democracia para esses safadinhos), passando pela atitude da própria polícia (tão aplaudida como o caveirão do Bope que arrebenta favelas), de cinegrafistas (ávidos por flagrar os “marginais” de camiseta GAP) e de muitos, mas muitos mesmo, cidadãos que só esperavam o ataque aéreo dos japoneses em Pearl Harbor para, em nome da legalidade, arremessar suas bombas atômicas sobre Hiroshima.
O episódio, em si isolado, é sintomático em vários aspectos. Primeiro porque mostra que, como outros temas-tabus (questão agrária, aborto…), a discussão sobre a rebeldia estudantil é hoje um convite para o enterro do bom senso. O episódio foi, em todos os seus atos, uma demonstração do que o filósofo e professor da USP Vladimir Safatle chama de pensamento binário do debate nacional – segundo o qual a mente humana, como computadores pré-programados, só suporta a composição “zero” ou “um”. Ou seja: estamos condicionados a um debate que só serve para dividir os argumentos em “a favor” ou “contra”, “aliado” ou “inimigo”.

quarta-feira, novembro 09, 2011

Crianças perguntam...


Crianças perguntam...


Por que nascemos? Esta é uma das perguntas mais profundas que as crianças fazem a seus pais. E, quando pai e mãe também procuram o sentido da vida, eles podem conversar claramente sobre o assunto com seus filhos.

As crianças têm muitas indagações. Assim que começam a falar e a expressar seus pensamentos, fazem perguntas aos pais, avós, professores e mesmo a pessoas sentadas perto delas num ônibus ou num parque. Pode-se dizer que bombardeiam as pessoas com perguntas. Querem que os adultos lhes expliquem o mundo: Mostre-me! Diga-me! Como? Por quê? Por que não?

Mas... e as respostas? Para essas questões muito profundas e de longo alcance, os adultos, em geral, não têm resposta imediata. Às vezes, reagem impotentes ou impacientes: Não pergunte tanto! Não faça perguntas tolas! Ou se perguntam a si próprios: O que posso dizer? Como devo dizer?
Cada palavra dita é muito importante, porque as questões são importantes. São questões sobre a vida. A criança existe e quer saber por quê!

Os argumentos verdadeiros surgem quando o adulto, ao ser questionado e ao se questionar, recorda de algo que está escondido no fundo de seu coração. Perguntas feitas de coração para coração exigem respostas também de coração para coração. Todo aquele que tenha procurado em si mesmo respostas para as questões fundamentais pode incentivar a criança a também encontrar seu caminho interior e a querer segui-lo. Nesse caminho tudo vai ficando claro, e, em algum momento, o grande enigma da vida lhe será desvendado: Vivo para despertar a eternidade que dorme em mim!

A eternidade é uma semente que jaz enterrada em cada coração e, há tempos imemoriais, aguarda ser trazida à vida. É uma criança que, uma vez desperta, prevê seu destino. Depende apenas de autonomia para ler o próprio plano e de orientação para amadurecer e caminhar em direção à Luz. 


quinta-feira, novembro 03, 2011

DEPOIMENTO - Nina Crintzs


Eu, o SUS, a ironia e o mau gosto
Nina Crintzs

Há seis anos eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos. Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer por que a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença.
Eu tinha 26 anos. Right on target. Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui a todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem.
 Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, "estímulos" elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas,  crânio,  córneas.  Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava. O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso.  E sem pára-quedas. E se você ta esperando um "mas" aqui,  sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada. O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares. A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu "eu não sei" mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz "eu não sei, vou pesquisar". Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.
 O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. "Custaria" porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla.
Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil. O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00. Eu acredito em poucas coisas nessa vida.
Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem. Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, "humor". Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.

terça-feira, novembro 01, 2011

segunda-feira, outubro 31, 2011

Fernando Pessoa


Meu pensamento é um rio subterrâneo
Posted on março 25, 2007
Fernando Pessoa in Poesias Ocultistas
 
Meu pensamento é um rio subterrâneo.
Para que terras vai e donde vem?
Não sei… Na noite em que o meu ser o tem
Emerge dele um ruído subitâneo
De origens no Mistério extraviadas
De eu compreendê-las…, misteriosas fontes
Habitando a distância de ermos montes
Onde os momentos são a Deus chegados…
De vez em quando luze em minha mágoa,
Como um farol num mar desconhecido,
Um movimento de correr, perdido
Em mim, um pálido soluço de água…
E eu relembro de tempos mais antigos
Que a minha consciência da ilusão
Águas divinas percorrendo o chão
De verdores uníssonos e amigos,
E a ideia de uma Pátria anterior
À forma consciente do meu ser
Dói-me no que desejo, e vem bater
Como uma onda de encontro à minha dor.
Escuto-o… Ao longe, no meu vago tacto
Da minha alma, perdido som incerto,
Como um eterno rio indescoberto,
Mais que a ideia de rio certo e abstrato…
E pra onde é que ele vai, que se extravia
Do meu ouvi-lo? A que cavernas desce?
Em que frios de Assombro é que arrefece?
De que névoas soturnas se anuvia?
Não sei… Eu perco-o… E outra vez regressa
A luz e a cor do mundo claro e atual,
E na interior distância do meu Real
Como se a alma acabasse, o rio cessa…

terça-feira, outubro 25, 2011

A hora do agora

Toda hora é hora de dar o salto para o novo
ovo de uma explosão de nova vida...
Findas infinitas, tácitas vindas de um vir a ser radical,
radicado em minhas memórias do por vir...
Essa é a promessa, peça de uma engrenagem
miragem concreta daquilo que nos espera,
que se espera ou exaspera,
eras e meras grandezas de tempos incontáveis,
contados em lendas em lentas articulações e evoluções.
Toda hora é, ora bolas, horário do tempo eterno, termo estranho,
que marca no relógio da impaciência de quem sabe que o tempo não para
para o às vezes desejado descanso.
Então descambas para a espera nervosa, nervosos lábios aos gritos
lançando-se aos ritos, mitos, mil tons de lamúrias sem respostas.
Toda hora é obra, e cobra seu cumprimento.
Toda hora posso mudar o tempo do relógio desses tempos de hoje,
templos de forasteiros, 
viajamos em busca da hora certa, 
ou certa hora mais que incerta.
"Enceta tua viajem", me diz a magia,
"aceita o incerto de toda hora ser a hora da obra certa. 
segue teu rumo!!!"

Carlos Wagner

sexta-feira, outubro 21, 2011

Pessoa

Da Minha Idéia do MundoFernando Pessoa
Da minha idéia do mundo 
                     Caí... 
Vácuo além do profundo, 
Sem ter Eu nem Ali... 

Vácuo sem si-próprio, caos 
De ser pensado como ser... 
Escada absoluta sem degraus... 
Visão que se não pode ver... 

Além-Deus! Além-Deus! Negra calma... 
Clarão do Desconhecido... 
Tudo tem outro sentido, ó alma, 
Mesmo o ter-um-sentido... 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

segunda-feira, outubro 03, 2011

Novo Mural no facebook...

Criamos um novo "Mural", no facebook, espaço para que nossas trocas possam ser mais efetivas e visualizadas.
Aqui, neste blog, propriamente, procuro exercer uma prática de escrever, ler e reler textos interessantes, criar novos textos em múltiplas linguagens e estabelecer um campo como um espaço onde nossas ideias possam ser veiculadas.
Estejam sempre à vontade para participar, aqui ou alí.
Deixe seus comentários.

http://www.facebook.com/pages/Coutinho-Sagrada-e-Campos-f%C3%A9rteis/221483291248909?v=info#info_edit_sections

Carlos Wagner

terça-feira, setembro 13, 2011

Texto lúcido


Marcelo Carneiro da Cunha
De São Paulo
Estimadíssimos milhares de leitores, cá estamos, à véspera do 11 de setembro de 2011, dez anos desde então.
Espero que vocês não saibam, mas eu estava lá. Eu faço que esqueço, mas estava, e nessas datas jornais sempre descobrem que eu estava lá e acabo falando a respeito, e falo em respeito ao dia e às vítimas, e em respeito ao direito que as pessoas têm de saber o que aconteceu naquele dia, mesmo que o que eu saiba seja pouco e nada mais ou melhor do que o que todos sabem. Saber é uma coisa, caros leitores, e viver é outra. Saber, todos sabemos. Viver, eu vivi, e preferia não ter vivido, simples assim.
Porque dói demais, estimados leitores. Estou aqui escrevendo e fazendo beiço e sorte a minha terrível avó Jovita não estar por perto, porque então eu ia ver só. Homem não fazia beiço, no mundo da minha avó. Acho que homens também não pegavam aviões cheios de pessoas e os jogavam contra prédios cheios de pessoas no mundo da minha avó, mesmo que certamente fizessem outras barbaridades.
O que acontece é isso, caros e estimados leitores. A humanidade vem se aperfeiçoando desde que começou a domesticar gramíneas e inventar cidades. Ela criou o teatro grego, a arquitetura romana, a cerveja, as catedrais, o teatro shakespeareano, a música sinfônica, o mais pesado do que o ar, o boteco de esquina e a televisão, juntamente com a antena e o bombril. Ela criou o bronze, o aço, o arco composto, o estribo, a pólvora, o canhão, o muro, a invasão do muro, a metralhadora, o gás mostarda; a bomba atômica e a testou em Hiroshima e Nagasaki, o bombardeio incendiário e o testou em Hamburgo e Dresden; ela inventou Auschwitz e o napalm. A cada avanço de uma bondade, um avanço na maldade, e assim a gente vem se equilibrando sobre o planeta, desde sempre. O dia 11 de setembro foi um passo adiante no avanço da maldade e quem estava em Nova York mais do que entendeu, sentiu. Eu andava pela rua, num dia absurdamente azul e com ar frio e sentia a maldade descendo do céu na forma de poeira (Grifo meu, Carlos Wagner). A gente olhava ao redor e via pessoas subindo cobertas de entulho caído dos céus. Os americanos inventaram o arranha-céu, e dessa vez o céu se abriu e jogou tudo lá de cima aqui em baixo, pessoas inclusive, bombeiros que tinham subido lá para salvar pessoas, inclusive. Houve muita morte naquele dia, e isso se sente, caros leitores.
Eu fui para um encontro de amigos escritores, estava em um hotelzinho na Union Square, a uns 3 quilômetros das torres. Acordei de uma festa, com dor de cabeça e sem saber de nada. Não vi os aviões atingindo as torres, não teria sido possível de onde eu estava. Vi as pessoas subindo a avenida, os caminhões de bombeiros cobertos de pó, tentei ir até o local, porque jornalista é assim: gente corre pra longe, eles correm pra perto. Mas a área estava isolada, e a verdade é que ninguém sabia o que iria acontecer. Ninguém sabia se eram mesmo dois aviões ou haveria mais caindo sobre a cidade. Ninguém sabia se o ataque era aquele ou haveria mais maldade. Nessas horas, a gente simplesmente não sabe e não entende.
O que eu vi foi uma cidade reagindo com uma calma invejável. Eu gostaria de sentir que seríamos capazes da mesma compostura numa hora dessas. Minha avó Jovita esperaria isso de nós, não sei se a atenderíamos. No dia 11 as pessoas ainda estavam em choque, mas um choque contido, ninguém falava alto, ninguém demonstrava medo. No dia 12, com o metrô funcionando, se via uma enorme tristeza se abatendo sobre todos. Mas nenhuma agressividade, nenhuma fala de vingança, apenas uma dor coletiva. A mim, nada aconteceu. Não passei qualquer dificuldade maior, fome, frio, nada. No dia seguinte, amigos que iam para Chicago de carro me convidaram e fui junto, esperar voos para o Brasil. Eu fui um daqueles caras intocados pelo terremoto, que nem ao menos ficam no lugar para viver as consequências. No entanto, todos vivemos as consequências hoje e por muito tempo, porque as grandes maldades alteram o que chamávamos de normalidade.
Eu estava em Chicago em 2003, quando os Estados Unidos invadiram o Iraque, um desastre que não começa com o 11 de setembro, mas é viabilizado por ele. Bush e falcões se aproveitam do clima com interesses claros e que a ninguém mais atendem, meio como a Al Qaeda, mas por outros caminhos. E é nesse mundo que todos vivemos, muito em especial os iraquianos, as maiores vítimas desse jogo.
Nosso 2011 também é o ano em que a parte árabe da humanidade resolveu dar o troco com a enorme bondade da derrubada em série dos tiranos deles, mostrando que sim, eles amam a liberdade e sim, a desejam e produzem.
Nesse 11 de setembro é nisso que eu vou pensar, enquanto pego um voo, e vejam só, para a Venezuela, onde vou lançar livro, dar seminário e falar de cinema. A vida é a soma das bondades que fazemos, menos as nossas pequenas maldades. Nessa matemática todos temos a nossa parcela a contribuir, pra lá, ou pra cá. Vou tentar ser um bom ser humano nessa semana, uma pequena maneira de apagar um pouco da sensação do 11 de setembro, aquela que insinua que nós, a humanidade no atacado, e pessoas no varejo não temos jeito. Temos sim. Apenas não é tão fácil, e, por vezes, é muito difícil, só isso. Só isso, meus caros e estimados leitores, e até a volta.

segunda-feira, setembro 12, 2011

Da coleção Gítanjali do poeta Rabindranath Tagore

"De porta em porta eu andara mendigando pelo caminho da aldeia, quando o teu carro de ouro apareceu na distância como um sonho deslumbrante e eu me perguntei se seria esse o Rei de todos os reis! O carro parou onde eu estava. Teu olhar caiu sobre mim e tu desceste com um sorriso inesperadamente estendeste-me a tua mão direita e disseste: “que tens tu para me dar?”
Fiquei confuso e parei indeciso; do meu alforje então, lentamente tirei e dei-te o grão de trigo menor de todos. Mas, que grande surpresa foi a minha quando, pelo fim do dia, entornando no chão a minha sacola, encontrei entre as migalhas um grão de ouro que era o menor de todos! Amargamente chorei, lamentando não ter tido coragem de me haver dado todo a ti!"

- Da coleção Gítanjali do poeta Rabindranath Tagore.


Todos novos em Capetinga

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Olha aí o pessoal lá de antes...

O lobo da estepe - Hermann Hesse

  • O lobo da estepe define minha personalidade de buscador

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